Feijão Com Arroz

Novembro 10, 2009

Rubem Alves (O Prazer nosso de cada Dia)

Arquivado em: Uncategorized — Antonio Polo @ 2:12 pm

QUEM diria que o Riobaldo era profeta ecumênico? Foi ele mesmo que me disse: “Eu, cá, não perco ocasião de religião. Aproveito de todas. Rezo cristão, católico e aceito as preces de compadre meu Quelemém, do Cardéque. Mas, quando posso, vou no Mindubim, onde um Matias é crente, metodista: a gente se acusa de pecador, lê alto a Bíblia, e ora, cantando hinos belos deles…”
Também eu não perco ocasião de religião. Tenho sangue católico nas veias. Meu avô ia ser padre. Lá no sobrado no sótão, ficavam guardadas as velharias numa canastra. Entre elas, uma carta do meu avô, adolescente, interno do Caraça, pedindo dez tostões para comprar uma batina nova.
Tenho também sangue de espírita, que eles chamam de “espiritualista” ou kardecista. Eu estava em São Paulo, puxei conversa com o motorista do táxi, perguntei de onde ele era. “Sou de Macuco”, respondeu. “Macuco? Conheço muito… É perto de Lavras do Funil onde vivi desde menino…” O taxista se sentiu mais íntimo. “Lavras é lugar de um espírito de luz, médico que anda pelo mundo dos sofredores curando doenças…” “E como é que ele se chama?”, perguntei. “É o doutor Augusto Silva…” Dei uma risadinha: “O doutor Augusto Silva foi meu tio…”
E tenho também sangue de protestante. A gente tinha ficado pobre por causa da crise de 1929. Fomos morar numa casa de pau a pique emprestada. Rico que fica pobre tem de mudar para longe. Todo mundo foge dele, com medo de que ele peça dinheiro emprestado.
Mas havia um homem que não fugia, se aproximava e visitava. Era o seu Firmino, evangelista protestante que prometia as riquezas do céu para aqueles que sofriam as pobrezas da terra. A pobreza do meu pai: não tinha dinheiro para pagar escola para os filhos.
Mas o seu Firmino conhecia os missionários protestantes donos do Instituto Gammon, em Lavras. Ele mexeu os pauzinhos e o Gammon deu bolsas de estudo para os meus irmãos. Ficamos então protestantes; não por conversão, por gratidão.
Pois não é que Deus, mesmo sabendo da minha religiosidade, anda me pregando umas peças? Meus amigos tentam interceder, inutilmente. E uma amiga querida me sugeriu que eu ficaria melhor se abandonasse minha incredulidade e acreditasse na reencarnação. Com a reencarnação tudo se explica e há a certeza de um final feliz…
“Pois saiba você que eu acredito na reencarnação”, eu disse. “Faz tempo anunciei a minha conversão num artigo de nome esquisito: “oãçanracneeR’”. Reencarnação ao contrário: não de trás para adiante, mas de diante para trás.
Não quero evoluir para frente nem ficar parado no eterno presente do céu… O céu me dá claustrofobia.
Além do que não quero evoluir.
Muitas coisas não podem e não devem evoluir: saíras de sete cores, riachinhos, ipês floridos, a “Nona Sinfonia”, uma preta jabuticaba são seres perfeitos. Como seria uma jabuticaba evoluída? Uma jabuticaba cúbica? Esse objeto é divino, não pode e não deve ser melhorado. O que eu quero não é evoluir. Quero é viver de novo intensamente o passado que vivi, sem os sentimentos de culpa que a minha religião botou na minha cabeça.Toda noite peço perdão a Deus pelos pecados que não cometi…
Assim, quando já são poucas as jabuticabas na minha tigela, rezo o meu pai-nosso herético erótico: “O prazer nosso de cada dia dá-nos hoje…”

Morre Lentamente (Neruda)

Arquivado em: Uncategorized — Antonio Polo @ 10:04 am

Morre lentamente – Pablo Neruda

Morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito, repetindo todos os dias os mesmos trajectos, quem não muda de marca, não se arrisca a vestir uma nova cor ou não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru.
Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o negro sobre o branco e os pontos sobre os “is” em detrimento de um redemoinho de emoções, justamente as que resgatam o brilho dos olhos, sorrisos dos bocejos, corações aos tropeços e sentimentos.
Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz com o seu trabalho, quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho, quem não se permite pelo menos uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música, quem não encontra graça em si mesmo.
Morre lentamente quem destrói o seu amor-próprio, quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente, quem passa os dias queixando-se da sua má sorte ou da chuva incessante.
Morre lentamente, quem abandona um projecto antes de iniciá-lo, não pergunta sobre um assunto que desconhece ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.
Evitemos a morte em doses suaves, recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior que o simples facto de respirar. Somente a perseverança fará com que conquistemos um estágio esplêndido de felicidade.

Pablo Neruda

Novembro 3, 2009

Deus Procura-te

Arquivado em: Uncategorized — Antonio Polo @ 11:03 am

Bonito texto de Henri Nowen, o qual estou conhecendo, por intermédio do site do Fchagas. (Vibrações da Alma)

Deus é Espirito, mas foi por vontade dEle mesmo, que preferiu se assemelhar à figura de Pai para nos ensinar qual o tipo de relacionamento que Ele desejaria ter conosco. Relacionamento de Pai para Filho.

Jesus, em quase todos os seus ensinamentos procurava mostrar que a nossa relação com Deus deve ser direta, e com intimidade… tal qual a relação de um Pai com seu Filho.

Infelizmente, pelas sutilezas e enganos filosóficos do nosso tempo, perdemos esse conceito de relacionamento com Deus, direto, intimo, simples, e unico, e preferimos fazer atalhos ao caminho principal, nos relacionando com um monte de bobagens as quais julgamos carregarem algo de valor espiritual, santos, orixás, guias, espiritos ditos superiores, mentores, (que são demônios) , leis de atração, poderes de cristais, chamas violetas, florais, elementos “santos” e procedimentos de “santificação”, e fazemos vinculos com essas coisas que nem conhecemos de fato, deixando Deus, o nosso Pai, em segundo plano.

Essas coisas são a raiz de toda amargura e falta de saúde espiritual, fisica, psicológica, e da alma.

Se queres ser um doente de alma, corpo e espírito, dê crédito a essas coisas, deixe Deus bem longe como Álguem inatingível. Faça essas coisas se queres ser doente, siga e se relacione com Deus se queres ser são.

Deus, Pai, Deus próximo de seus Filhos, Deus que Age, como um Pai agiria, caso seus filhos necessitem que Ele, Pai, aja…

É enganosa a imagem de Deus-professor, que tem como primeiro interesse ajudar na evolução de seus “alunos”, este não é o Deus revelado em Cristo, não é o Deus Cristão muito menos o Deus da Biblia.

Conforme ensinado por Jesus nos Evangelhos, e em Suas parábolas, Deus, como Pai, está interessado primordialmente em amar seus filhos, e ser amado por eles, posto que todos os outros interesses são colocados em segundo plano.

Isso ficou maior que o texto original …

Aproveite a leitura…

screenshotAo longo de toda a minha vida tenho lutado por encontrar Deus, por conhecer Deus, por amar a Deus; procurei seguir as diretrizes da vida espiritual – orar constantemente, trabalhar pelos outros, ler as Escrituras – e evitei muitas tentações de arranjar desculpas. Falhei muitas vezes, mas voltei sempre a tentar, mesmo quando estive à beira do desespero.

Agora pergunto se durante todo este tempo tive ou não suficiente consciência de que Deus andou a procurar encontrar-me, conhecer-me e amar-me. A questão não é «Como hei-de encontrar Deus?», mas: «Como hei-de deixar que Deus me encontre?». A questão não é «Como posso conhecer Deus?» , mas: «Como posso deixar que Deus me conheça?». Finalmente, a questão não é: «Como vou amar a Deus?», mas: «Como vou deixar-me amar por Deus?». Deus anda por longe à minha procura, tratando de me encontrar e desejando levar-me para casa.

Nas três parábolas em que Jesus responde à pergunta: porque come com os pecadores? , põe a tónica na iniciativa de Deus. Deus é o pastor que vai à procura da ovelha perdida. Deus é a mulher que acende uma candeia, varre a casa e procura por todo o lado até encontrar a moeda perdida. Deus é o pai que anda em busca dos filhos, vela por eles, corre ao seu encontro, os abraça, roga, suplica e anima a que voltem para casa.

Por estranho que pareça, Deus deseja encontrar-me tanto, se não mais, do que eu desejo encontrar Deus. Sim, Deus reclama-me tanto como eu a Ele. Deus não é o patriarca que fica em casa, imóvel, à espera que os filhos voltem para ao pé dele, à espera que peçam desculpa pelo seu comportamento, que peçam perdão e prometam emendar-se. Pelo contrário, abandona a casa sem fazer caso da sua dignidade, corre à procura deles, não quer saber de desculpas e promessas de emenda, e condu-los à mesa magnificamente preparada.

(Henri Nouwen – “O regresso do filho pródigo”)

Novembro 1, 2009

O des-Caminho do Meio

Arquivado em: Uncategorized — Antonio Polo @ 1:50 pm

Para recapitular: de acordo com as palavras de Jesus, há apenas dois caminhos, o difícil e o fácil (não existe um caminho do meio), nos quais se entra por duas portas, a larga e a estreita (não existe outra porta), que terminam em dois destinos, a des­truição e a vida (não há uma terceira alternativa). Nem é preciso dizer que uma conversa assim é extremamente fora de moda hoje em dia. As pessoas gostam de ser sem compromisso. Toda pesquisa de opinião pública permite, além do “sim” e do “não”, um conveniente “eu não sei”. Os homens adoram Aristóteles e o seu dourado meio-termo. O caminho mais popular é a via media. Desviar-se do meio é arriscar-se a ser chamado de “extre­mista” ou “fanático”. Todos se ressentem quando são postos diante da necessidade de uma escolha. Mas Jesus não nos deixa escapar dela.

John Stott – Contra Cultura Cristã

O Padrão de Jesus para os Relacionamentos

Arquivado em: Uncategorized — Antonio Polo @ 1:48 pm

O padrão de Jesus para os relacionamentos na contracultura cristã é alto e sadio. Em todas as nossas atitudes e no comporta­mento relativo a outras pessoas, nem devemos representar o juiz (severo, censurador e condenador), nem o hipócrita (que acusa os outros enquanto se justifica), mas o irmão, cuidando dos outros a ponto de primeiro acusar-nos e corrigir-nos para depois procurarmos ser construtivos na ajuda que lhes vamos dar. “Corrija-o”, disse Crisóstomo, referindo-se a alguém que tinha pecado, “mas não como um inimigo, nem como um adversário que exige o cumprimento da pena, mas como um médico que fornece o remédio”, e, ainda mais, como um irmão amoroso e ansioso em salvar e restaurar. Precisamos ser tão críticos co­nosco como somos geralmente com os outros, e tão generosos com os outros como sempre somos conosco. Assim cumprire­mos a Regra Áurea que Jesus nos dá no versículo 12 e agi­remos em relação aos outros como gostaríamos que eles fizessem conosco.

John Stott – Contra Cultura Cristã

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