Um exemplo mais respeitável, embora também extremo, foi Leon Tolstoy, o reformador social e notável novelista russo do século XIX. Em sua obra O que eu Creio, 1884, ele descreve como, num período de profunda perplexidade pessoal sobre o significado da vida, ficou “sozinho com o meu coração e o livro misterioso”. Enquanto lia e relia o Sermão do Monte, “subitamente compreendi o que antes não compreendia” e o que, segundo sua opinião, toda a Igreja não havia entendido durante 1.800 anos. “Compreendi que Cristo diz exatamente o que declara”, particularmente na ordem “não resistais ao mal”. “Estas palavras . . ., entendidas corretamente, foram para mim uma verdadeira chave para tudo o mais.” No segundo capítulo (“O Mandamento da Não-Resistência”), ele interpreta as palavras de Jesus como proibição a toda violência física contra pessoas e instituições. “E impossível confessar, ao mesmo tempo, que Cristo é Deus, cujo ensinamento básico é a não-resistência ao mal, e, consciente e calmamente, trabalhar para o estabelecimento da propriedade, dos tribunais legais, do governo e das forças armadas . . .”. E, outra vez, “Cristo proíbe completamente a instituição humana de qualquer tribunal legal” porque estes tribunais resistem ao mal e até mesmo retribuem o mal com o mal. Os mesmos princípios se aplicam, diz ele, à polícia e ao exército. Quando os mandamentos de Cristo forem finalmente obedecidos, “todos os homens serão irmãos, e todos estarão em paz uns com os outros . . . Então o Reino de Deus terá chegado”. Quando, no último capítulo, tenta defender-se da acusação de ingenuidade porque “os inimigos virão … e, se não os enfrentarmos, eles nos matarão”, ele mesmo contradiz sua cândida, na verdade equivocada doutrina de que os seres humanos são basicamente sensatos e afáveis. Até os “chamados criminosos e ladrões . . . amam o bem e odeiam o mal como eu”. E quando eles perceberem, através do ensino e das atitudes dos verdadeiros cristãos, que os não-violentos dedicam suas vidas ao serviço dos outros, “nenhum homem será tão insensato a ponto de privar de comida ou matar aqueles que lhe servem”.
Um homem que foi profundamente influenciado pelas obras de Tolstoy foi Gandhi. Já em criança aprendera a doutrina do ahimsa, “a abstenção de prejudicar aos outros”. Mas, depois, como jovem, leu em Londres pela primeira vez o Baghavad Gita e o Sermão do Monte (“Foi esse Sermão que me fez estimar tanto a Jesus”), e depois, na África do Sul, O Reino de Deus Está em Vós, de Tolstoy. Quando retornou à Índia, cerca de dez anos mais tarde, estava resolvido a pôr em prática as idéias deste último. Falando francamente, sua política não foi nem “resistência passiva” (que ele considerava negativa demais), nem “desobediência civil” (que era muito desafiante), mas satyagraha ou “a força da verdade”, a tentativa de vencer os seus oponentes pelo poder da verdade e “pelo exemplo do sofrimento voluntariamente suportado”. Sua teoria aproximava-se muito da anarquia. “O Estado representa violência numa forma concentrada e organizada.” No estado perfeito que ele imaginava, embora existisse polícia, esta raramente usaria da força; o castigo acabaria; as prisões seriam transformadas em escolas; e o litígio seria substituído pela arbitragem.
E impossível não admirar a humildade e a sinceridade de propósito de Gandhi. Mas a sua política tem de ser considerada irrealista. Ele disse que resistiria aos invasores japoneses (se viessem) com uma brigada de paz, mas a sua declaração jamais precisou ser posta à prova. Ele insistia com os judeus que oferecessem uma resistência não-violenta a Hitler, mas estes não o atenderam. Em julho de 1940, enviou um apelo a todos os ingleses para uma cessação de hostilidades, no qual declarava: “Tenho praticado, com precisão científica, a não-violência e suas possibilidades por um período ininterrupto de mais de cinqüenta anos. Eu a tenho aplicado em todos os aspectos da vida: vida doméstica, vida institucional, vida econômica e vida política. Não conheço um só caso no qual tenha fracassado.” Mas o seu apelo caiu em ouvidos moucos. Jacques Ellul faz um perceptivo comentário, dizendo que “um fator essencial para o sucesso de Gandhi” foi o povo com quem estava envolvido. De um lado estavam os hindus, “um povo moldado por séculos de preocupação com a santidade e a espiritualidade, . . . um povo . . . capaz de entender de maneira única a sua mensagem e aceitá-la” e, do outro lado, os ingleses, que “oficialmente se declaravam uma nação cristã”, que “não podia permanecer insensível à pregação da não-violência de Gandhi”. “Mas coloquem Gandhi na Rússia de 1925 ou na Alemanha de 1933. A solução teria sido simples: depois de alguns poucos dias ele teria sido preso e ninguém mais ouviria falar dele.”